Rerbrek, o Ruivo  

Posted by Harijan D



Ao meio dia, o sol batia no topo da sua cabeça, criando uma verdadeira tocha de seus curtos cabelos. Sua armadura, não tão vermelha assim, trazia consigo runas estranhas e adornos de crânios que pareciam incrustados à força, envolvendo seu corpo num lacre metálico de difícil acesso para armas gentis. Não soprava ar de seus pulmões, pois corria com tanto vigor que fazia questão de não desperdiçar um suspiro. Balançava sua espada em um arco que fez daquele pobre e franzino ser, duas peças postas de carne pra qualquer besta carnívora com apetite moderado. A ação durou tanto quanto um estalar de dedos.
Em meio aos restos ensaguentandos que lustravam sua armadura, revirou as tripas até achar um cordão dourado, partido em dois graças a sua falta de requinte em atacar seres que lhe parecem perigosos.

Apesar de franzino, o cadáver, quando vivo, não era nada perigoso. Nada, porque quando vivo jamais algo ou alguém havia-o superado em tal quesito. Até Rerbrek conseguir chegar em sua torre. Em seu tempo como um membro da população do planeta, o agora divido ao chão, fora um dos magos mais temíveis daquele local. Aprendiz de Tebarkatel Fogo Azul, instalara uma verdadeira opressão de horror nas redondezas do local onde agora jazia sua cova rasa. É dito, que matava cerca de dez determinados aventureiros por mês, cada qual sofrendo de uma morte mais agonizante e terrível que a outra, para servir de exemplo ao próximo que assim tentasse, mas o efeito era inverso. Quanto mais matava ou prendia as almas dos, não tão suficientemente fortes, guerreiros e aspirantes a heróis, mais chovia em seu quintal espadas brandidas e magias evocadas. Era necessário usar pelo menos dois adjetivos de grandiosidade juntos para definir a altura de onde residia sua torre, escolhida propiciamente para evitar qualquer convidado indesejado, que no fim também não servira pra nada, sempre havia um mais versado nas tarefas físicas que outro. Os que careciam de força supriam em técnica e equipamento, ou quaisquer outros artifício mágicos para tal. O mesmo aplicava-se à enorme porta de Chumbo Crakciano que tanto reforçava, e que resolveu até evitar que os vermes de sempre a arrombassem e estragassem o trabalho tão exímio de lacrá-la magicamente, saindo antes mesmo dos heróis chegarem à borda de seu jardim. Ah o jardim... à beira de sua porta, num platô que dificilmente alguém ousaria calcular a altura. Perdia-se de vista na subida e na descida. Os aventureiros que ali chegavam, eram dizimados que nem pó, viravam adubo, ou figura decorativa. Alguns viajantes de barcos aéreos chegaram a presenciar cenas impressionantemente alegóricas de luzes e efeitos da realidade deturpando-se em prol da destruição alheia, um erro, uma vez que nunca satisfeitos com a distância, encontravam a mesma fatalidade dos observados pela ira do mago cruel, que há muito, perdera a paciência com curiosos, mas que no fundo, gostava mesmo era de se exibir, admitia.

O nome do que será lembrado como um mago cruel era Foz Ezuberrim. Encontrou sua morte na porta de casa, quando encontrou pela primeira vez na vida, alguém imune aos seus estudos. Anos e anos, talvez até um século ou mais, tratando de desvendar segredos guardados a dezessete chaves ou mais pela Universidade Secreta, agora voltavam aos seus devidos locais que jamais deviam ter sido violados. Sua perplexidade ao descobrir que era tão inútil quanto uma barata a um chinelo iniciou-se com uma chuva tão exorbitante de pedras incandescente azuis caindo dos céus, ensinadas a contragosto por seu antigo mestre, evocadas graças à visão de um homem que era o antônimo de franzino e inseguro, dono de um olhar capaz de fazer um tigre ficar estéril e uma espada equiparada a uma enorme extintora de alguma raça de besta gigante.
O queixo do mago quase tocou o pé da montanha que adotara como lar, quando aquele ruivo, sem nem sequer um cabelo queimado, pulou como um gato poucos centímetros à sua frente das estupidas colisões mágicas, entoando palavras que, naquele instante, ribombavam em seu peito como os sinos da própria Morte. Dizeres que ecoariam em toda a sua eternidade:
- O colar, dá!
- Co-co-co... medalhão? - retorquiu o mago, numa voz que agora o elevava ao posto mais alto dos medrosos de Feldurun.
- AGORA!
Reagindo da mesma forma que um coelho reagiria ao perceber o lobo bem na sua frente, depois de gabar-se de uma bela coitada, virou o corpo com tanta insegurança em direção à sua torre, que nem teve tempo de sentir a dor daquele metal separando tudo que havia de par em seu corpo, e o que não também...

Rerbrek olhou para quele imenso portão de Chumbo Crakciano. Então olhou pro medalhão na sua mão, torceu a boca em sinal de desconforto só de pensar no esforço pra abrir aquela porta, e se valeria a pena o risco de acabar com seus dias de mercenário-aventureiro-matador-de-magos-malígnos-ou-não, por conta do perigo de invadir a torre de um mago, ou se iria embora e daria por satisfeito com aquela recente aquisição. Pensou algumas vezes. O sol se pôs... E pulou montanha abaixo, feliz de saber que agora, além de imune à magia, nenhum tipo de Wyrm seria corajoso o suficiente de contrariar suas ordens.

Cidade Fantástica!!!  

Posted by Harijan D

Em um dia de pregos de prata, como são chamados os dias que chovem muito em Lumina, ao mesmo tempo que algo de muito importante ocorre, fazendo com que, em algum ponto da cidade, as gotas possuam um brilho extremo, dado os inúmeros holofotes e luzes de tal local; numa magivisão comum, de algum trabalhador cansado no último dia da semana...

- Caros magivisores! Aqui quem fala é o seu queridííííssíííímo amééégo do seu programa preferido das noites de Corvo, Garnebaltti, O iluminoso!
Estou aqui nesse exatííííssimo momento com o mais TCHAM, o mais POW, o mais UAAAAAAAAAUUUU do momento. Aquele que está em todos os Grandes Quadros da cidade! E não precisa ir até a janela, pois ele está aí na sua magivisão, e o melhor, AO MEU LADO!!! Coooooooddyyyyyyyyyth Laaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaann!!!


*Barulho extremo de multidão gritando*

- Então Coddyth! Diga pra gente, do que se trata esse seu último espetáculo FAAAAAANTÁÁÁÁÁSTICOOOOOOO!!! chamado Pequeno Rei Indefeso e o Grande Matador de Dragões???!!!

- YAAAAAAAAAAAHHH!!! Boa noite amigos! Do que se trata? Como assim do que se trata??? É ÓBVIO que se trata de MIM! E do meu último glorioso e magnífico feito!

- Não nos diga que você matou um draaaaaaagãooooooooooooooo???!!!

- CLARO SEU IDIOTA! Você acha que eu faria uma peça com esse nome, sobre uma ida minha ao banheiro???!!!

- Oooooooooooohhh Nooooossooooo Seeeeeeenhoooooooor!!! Um dragão de V-E-R-D-A-D-E???

- Alguém por favor tira esse cara da minha frente... me dá esse troço aí da sua mão, é isso aí que se fala, me dá logo isso antes que eu arranque suas pernas fora!!! Então caros amigos! Aqui quem fala é o seu herói preferido! O maior campeão dos campeões! O imbatível! Inigualável! O mais poderoso guerreiro que essa Cidade Fantástica das Luzes já viu! O seu arauto! EU! CODDYTH LANN!!! Venham ver a minha última peça! O Maravilhoso ato de bravura máxima! Um pequeno elfo desgarrado de sua família imoral e sórdida, em sua contenda para ajudar o povo Gnomo do Noroeste, onde seu rei, fraco e desnutrido, clama por ajuda para livra-los do maior mal que sua terra já enfrentou, o Dragão das Profundezas! O ÚLTIMO DRAGÃO VIVO!!! E que agora jaz em meu teatro, esperando VOCÊ!!! Venham logo, comprem seus assentos e esperem pelo pouso maravilhoso da mais bela embarcação de todos os tempos, o Zephyr d'Ouro!!! UM BEIJO SUCULENTO E QUENTE EM TODAS AS BELAS MULHERES DA CIDADE, e um abraço grande nas feias, velhas, homens e crianças! E VENHAM NA MINHA PEÇA! SEJA GUILDE, ACADÊMICO, BURGUÊS OU EXCLUÍDO!

- Eeeeeeeeeeeeeiii!!! Você não pode falar isso na... AHHHHRRRRRG!!! MINHAS PERNAS!!!

- ESTOU ESPERANDO VOCÊS!!! TCH...


Um barulho cessou, o quarto onde a magivisão permanecia, escureceu-se. O homem fora dormir, mas não dormia.

A cidade estava assim. Repleta de pessoas sedentas por fama. Isso maçava-o muito.
Desde o momento que chegara na cidade, tudo que ouvira antes foram conselhos de seu avô, um aposentado trabalhador de uma famosa guilda de construtores. Dos conselhos, o que mais permeava suas lembranças, fora justamenta aquele que considerara seu primeiro princípio, o respeito entre os cidadãos. E isso era bem verdade, praticado e mantido por todos os homens de louvor. Bastava sair à rua e perceber, homem ou mulher, que fosse digno do que comia, respeitavam-se mutuamente. De fato, havia um preconceito com aqueles de má índole, ou que não saibam cumprimentar adequadamente um vizinho ou companheiro de uma longa viagem de trem pela cidade. Tanto era o preconceito, que preocupava se alguém o fizesse demais, pois ganhava a desconfiança de ser um farsante, um ladrão à espreita por uma oportunidade.
Tudo isso, que lembrava, era de agora. Antes, era tudo melhor. Agora, a violência tomava conta. Já ouvira falar dos tempos remotos, quando não haviam a ajuda dos Filhos das Nuvens para iluminar seus lares, ruas e ferrovias, porém, era fato consumado que, desde o surgimento da Magivisão, a violência crescera.

Após casar-se, a preocupação apenas aumentou. O que remeteu à época da criação de sua filha. Não permitia-a andar sozinha pelas ruas, pelo menos até completar seu Ciclo de Aprendizado Básico na mesma guilda que seu avô trabalhara. Afinal, graças ao bom nome dele, fora indicado e iniciado, e agora, honrando o pai de seu pai, cruzava a cidade, erguendo prédios e construções no melhor estilo Antigo da arquitetura local. Se especializara nela, junto com seus colegas de divisão nesta Guilda de Construtores. No entanto, sua herdeira demonstrou olhos para outro aspecto da construção, o estilo Escultural Novo. Era um estilo estranho, muito trabalhado por mentes jovens, claro, afinal, nem todos apreciavam aquelas edificações esculpidas, que simbolizavam muitas vezes, mais do que mil olhos podem vivenciar.

O orgulho pela filha era grande. No dia de seu casamento, com um jovem também da mesma Guilda, e de interesses mútuos, um grande rebuliço se sucedeu naquela Casa de União, graças ao antigo namorado dela, um arruaceiro, antigo morador da vizinhança. Este, coitado, havia falhado desde sempre no seu arranjo por uma vida certa e digna. Começou desde cedo a tomar Chá de Mol, o que levou-o a invadir inúmeras propriedades, aliar-se com outros vagabundos viciados dos arredores, e até a tentar induzir sua filha ao consumo da mesma maldita bebida. Era uma alívio imenso ver sua filha longe de um traste como esse, que, de fato não fora capaz de acabar com aquele casamento. Não que o rapaz carecesse de capacidade nas artes marciais, pelo contrário. Era visível como o casamento de uma ex-namorada pertubava-o tanto, pois seus olhos, no dia tal, denunciaram-no a todos presentes na comemoração. O coitado não tivera forças, fora incapaz de abater sequer um dos dois Guardas do Ouro que foram contratados.

Mas em realidade, não sentia raiva do pobre cidadão. Pois ele, mesmo sendo filho de pais decentes, não se enquadrava no perfil daquela cidade. Tornarasse algo contra sua vontade, pois não era acolhido como um lutador. É verdade que todos sempre notaram a capacidade daquele jovem, e poucos o viram perder um duelo, mas desde que os duelos tornarão-se ilegais, muitos destes lutadores perderam seu ganha pão, ou foram cruelmente caçados pela Guarda de Lumina. Desde então, os que não possuem dons, ou que não conseguem adentrar o sistema burocrático da vida civilizada, tornam-se tão excluídos como aqueles dos Bairros Mortos.

E agora, nessa altura dos tempos, após tantos anos desde a celebração daquele matrimônio, nunca mais tivera notícias daquele jovem, ex-possível genro, que assim era melhor. Imaginou sua situação vivendo como um bandido, ou como um mendigo. Talvez tenha até se aliado ao grupo A Mancha, comentendo delitos em nome de ideais profanos. Era certo que, de vez enquando, rezava para A Cidade acolhe-lo, dar-lhe uma oportunidade de mudar.

Ninguém pensava nos desfavorecidos. Ninguém tinha tempo para isso. Assim que abrisse os olhos de novo, precisava focar sua mente na estrutura da qual trabalhava agora, aquele grande novo Museu do Atual. Mais um, dos cinco que haviam apenas no seu distrito. O segundo que construira, pois o anterior tivera seu avô como um dos responsáveis. De fato, muitas informações e acontecimentos surgiam mais rápido que Espíritos de Raios abandonavam suas lâmpadas, e era necessário locais para armazenar tais fatos. Mas ao mesmo tempo que a cidade crescia, crescia o número de pessoas, de ganância, de famosos e de seguidores de famosos.
A cidade oferecia uma chance de uma vida repleta de delírios e prazeres, gritado os quatro pontos cardeais e além! E muitos, não encontravam durante toda uma vida tais promessas.

Coddyth era de fato, uma sensação do momento. Sua filha falava mais dele do que de seu esposo na presença do pai. Era notável o desconforto de seu genro em tais momentos. Até tentava desconversar, mas sua filha comporta-se como uma menina quando o assunto é este. E não diferente é o filho de sua filha, seu neto, que de brinquedos, todos eram bonecos dos membros da Companhia das Aventuras Fantásticas, o grupo teatral que se apresentava naquele imenso, e provavelmente estupidamente caro navio flutuante. E isso realmente o irritava. Pois aquela Embarcação Aérea deveria valer todo os Denaris que sua família, assim como todas as famílias de sua Guilda, possuíam, juntas, no banco, multiplicada por muito... Vai lá saber por quanto...

Barcos flutuantes, celebridades, sua família, a violência e a Cidade. Preocupações de um homem comum daquela imensa solidão conglomerada e iluminada. Por sorte, sua esposa acompanhava-o no sofrimento de cada dia, e juntos, rezavam para que Ela, a Protetora da Cidade, ajudasse naquele próximo e difícil dia de trabalho, e para o duelo, sem armas, que já estava combinado, logo após o término do expediente, com aquele colega de Guilda.

As Viagens de Attanor  

Posted by Antonio Marcelo

O maior problema de Margotta desde que nascera, era ser muito curioso. Desde pequeno perguntava ao seus pais a razão de muitas coisas :

- Por que chove sempre ?
- Por que o céu sempre é cinza ?
- Por que a lama ferro endurece ?
- Por que ? Por que ? Por que ?

Eram tantos porques desde pequeno, que na escola o apelidaram de Margotta o questionador. Com os anos passando as dúvidades de Margotta em nada diminuíam, mas de certa forma isto fez-lhe bem, pois começara a estudar as ciências do mundo, se tornando um grande sábio. Mas o desejo de saber as coisas continuava lhe importunando, mesmo que em menor intensidade, mas ainda importunando.

Margotta as vezes não olhava o mundo a sua volta, nem a bela Audrine, uma sábia como ele, mas dotada de raríssima beleza, combinada com uma grande inteligência. Audrine conseguira estudar e prever todos os ciclos das grandes chuvas, o porque de sua existência. Estudara as propriedades da lama ferro e descobrira formas de melhorar sua resistência, estudara o comportamento dos fluidos vitais no homem, estudara magia, em resumo era uma mulher muito, mas muito inteligente.

Mas do alto de sua sabedoria Audrine nunca conseguria entender como se apaixonara por Margotaa...
Ele não era um belo homem, não era belo em aparência, meio franzino e de jeitos muito simples. Era a antítese dos diversos homens que a admiravam, fortes, belos como os heróis das lendas, mas não sabia explicar porque gostava daquele homem. Margotta não havia percebido como a bela mulher aspirava por ele, apenas tentava saciar sua curiosidade com relação as coisas do mundo.

Certo dia Margotta e Audrine estavam juntos no grande hall da biblioteca Academia das Letras Comuns, olhando um velho livro, quando um peqeuno papel com uma notação caiu de suas páginas. Margotta pegou-o curioso e mostrou a Audrine. Esta olhou e reconheceu ser de um dialeto antigo e que estava escrito :

Estande 340, Prateleira 5, Volume 47

Ambos olharam curiosos um para o outro e resolveram ver se tal estante existia. Caminharam pelo grande prédio e depois de quase vinte minutos acharama tal estante num lugar escuro e afastado. Foram na prateleira 5 e procuraram tal volume 47, encontrando um pequeno livro com uma capa de couro vermelha. O livro não era fino, e ao abriem leram um título que os deixou curiosos :

"As Jornadas de Attanor, pelas Profundezas do Mundo"

O livro estava escrito a mão, numa caligrafia muito bonita, com diversos desenhos, inclusive dos grandes vermes que brotavam de vez em quando da terra, destruíndo diversas partes da grande cidade.

- Curioso este livro Audrine, quem é este tal de Attanor ?
- Nunca ouvi falar - respondeu - só posso te dizer uma coisa - folheou mais o livro - isto aqui parece o diário original dele, já que o mesmo não está impresso e sim escrito a mão...
- Reparei isso, vamos levá-lo para sala de leitura...

Aos e afastarem da estante Margotta, guardou o papel com as indicações da estante no bolso de sua tûnica de estudante. Dirigiram-se a uma mesa do hall de leitura, do qual estava vazio, com apenas os dois presentes. Sentaram-se numa mesa iluminada pelas lâmpadas de luz mágica e e abriram a primeira página do livro...

Continua...

Sapo, guerreiro, monge, político?  

Posted by Harijan D

Caro Devarenir d'Sossobriandis

Sinto pelo meu sumiço repentino, mas não pude evitar. Há tempos venho comentando sobre os relatos que busco sobre o tal Quoig, que muito famoso ficou durante sua estadia em nossa cidade. Pois bem, meu assistente prontificou-se em alegrar-me com uma notícia e tanto, uma passagem (de última e urgente hora) em uma embarcação aérea. Confesso que sair assim, tão rápido sem nem tempo para mandar-lhe um Avograma pode parecer mentira, mas não espero que ache menos absurdo eu dizer que aqui não há nenhuma Ave Azul para isso. Sei que sua preocupação agora, deve ter feito sua enferma condição nas partes de sentar eclodirem, mas pegue uma almofada e acalme-se, estou em segurança, e melhor, no caminho de volta para nossa Gigápole. Escreverei rápido, pois não quero estragar as melhores partes em letras tortas, mas sim amaciar sua debilitação.


Bem, vamos ao que interessa:

Kwon


Este Quoig nasceu na Cidadela do Miuncus, porém, não passou muito tempo de sua infância nela, e tão pouco da adolescência. Possui uma história de vida um tanto quanto intrigante, e por demais interessante. Em minhas buscas por relatos deste sujeito, que tem sua passagem em nossa cidade muito bem marcada para quem possui olhos e ouvidos atentos, encontrei pouco a seu respeito, porém, suficiente para explanar um pouco sobre si.
Uma coisa é certa; e para confirmar tal certeza, tive de investigar em muitos documentos, até mesmo a fazer uma viagem à Cidadela do Miuncus (sim, é de onde estou saindo agora, e inteiro!) para descobrir a verdadeira história, e apesar de ter encontrado mais versões diferentes sobre os mesmos fatos, fui bem aventurado em ter achado, sem procurar, um dito familiar de Kwon, que de fato possuía características parecidas com o tal; era um sujeito honesto.

Foi me dito, que desde pequeno ele fora dotado de um espírito forte e incontrolável, com agressividade exorbitante que pasmava a todos em seu bairro natal (nota importante: os Quoigs utilizam demarcações geográficas iguais às nossas). Era muito rebelde, não era um exemplar seguidor de regras, e por confiar demais em suas próprias capacidades, não gostava de ser ajudado, nem pelos seus pais.
Antes da morte misteriosa destes, saiu em uma viagem pelo mundo, da qual para muitos, fora considerado um seqüestro ou possível morte forjada pelos seus parentes, pois ambas as famílias, de pai e de mãe, precedem de linhagens famosas e respeitadas de políticos aqui em sua terra natal. Isto antes dele completar doze anos.

Sua jornada passa como um mistério para o mundo, da qual nunca ninguém soube seus verdadeiros motivos, sendo estes guardados por ele à sete chaves. Ainda criança, chegou a um Monte Ajrûn, do qual nunca ouvi falar, e recebeu treinamento de um monge chamado Harâma, em algum tipo de templo sagrado. Sobreviveu a todos os treinamentos, inclusive voltando com méritos de um tal Teste do Oposto. Por algum motivo, também desconhecido, não fora consagrado com o título maior deste templo, tendo seu treinamento interrompido. Jamais ouvi falar de tal templo e local. Necessito de seus dotes em conhecimentos geográficos para descobrirmos onde se situa, e mais, sobre estes, até então, desconhecidos monges. A passagem que narra sua viagem de volta à sua terra natal também é um mistério, porém é sabido que se tornara um exímio combatente, e ganhando o título de Músculo de Aço, obtido apenas nas arenas mais perigosas das terras incivilizadas, os chamados Cercos de Sangue. Curioso comentar, que tais participantes de tais rixas não são em sua maioria seres pensantes, como nós, humanos, nem muito menos livres, como Kwon supostamente era. São escravos, que por sua vez, dividem e competem pela vida com monstros de todos os tipos, uma festa para a mais exigente mente sádica e carniceira. No entanto, não há registro de Kwon se tornar um escravo, mas sim, ganho uma fama arrebatadora, tendo ganho diversos títulos em diversas modalidades, até como Campeão Felduriano (o que muitos chamam de campeão mundial, porém que se restringe apenas às áreas conhecidas onde encontram-se e realizam-se tais arenas ao longo do continente).

Ao voltar para seu lar, estabeleceu família com uma Quoig que conhecera na festa de sua chegada, ou como os Quöigs chamam, fesmícios, uma mistura de festa com comício. De fato as Qüoigs não são NADA bonitas. Como disse antes, sua família possui um histórico político, e não era pouco, pois um de seus tios, o mais próximo dele, exercia o cargo de prefeito menor, sendo responsável por todo um bairro. Não era flor que se cheirasse, mas comparado a outros Qüoigs, era considerado um político bom demais, e nada melhor para levantar sua moral, do que um fesmício em comemoração à volta de Kwon. O engraçado, é que quase ninguém se lembrava mais dele.

Kwon teve dois filhos, um sapinho e uma sapinha. Não consegui informações sobre os nomes deles, o tal parente não quis me contar, mas não forcei, pois o que vou narrar em seguida revela o motivo de tal discrição.
Quando seus filhos completaram cerca de 10 anos cada, o tio de Kwon morrera misteriosamente. O fato ganhou repercussão em toda a Cidadela, pois ele havia anunciado algumas semanas antes em alguns Fesmício, que passaria o cargo, exercido por ele até então, para Kwon, ou para um primo de Kwon, muito conhecido na Cidadela de Miuncus, chamado Lombrunj.
O que mais me chocou, foi descobrir que o próprio Lombrunj ajudou na investigação da morte do tio, e todas as evidências apontavam para ninguém menos que o próprio Kwon.
A partir daqui, poderia eu ocupar prateleiras de livros narrando às diferentes histórias de como tudo isso aconteceu e seus motivos, tantos foram os relatos por minha pessoa ouvidos (com paciência sobre humana eu diria). De fato foram muitos, mas novamente confiei apenas em um, e acho que não preciso repetir de quem foi... Continuemos. Kown, abismado, tomou uma atitude drástica e foi tirar satisfações com seu primo, fora levado a interrogatório antes mesmo de encontrá-lo, o que segundo o narrador, acendeu a centelha inicial de raiva em Kwon. Em seu interrogatório, os detetives acusaram-no incessantemente (uma nota importante, na sociedade Quöig, detetives não apenas fazem as investigações e apreensões, mas também participam ativamente do julgamento), e mesmo Kwon negando tudo, não quis advogado de defesa para seu julgamento. Da sessão, muitos contemplaram sua condenação à prisão perpétua numa Bolhitária (a solitária dos Quoigs), que abalou ainda mais Kwon quando presenciou as principais evidências de seu crime não cometido, levadas à júri por ninguém menos que Lombrunj.
A raiva de Kwon fora tão intensa que, descontrolando-se na frente de todos, quebrou suas algemas e espancou o próprio primo. Este pouco antes de perder a consciência, sua aparência e por pouco a vida, conseguira acusar Kwon de ser um sujeito perigoso, incontrolável e insano. Infelizmente, Kwon deu motivos bem visuais para as acusações tornarem-se verdade aos ouvidos de seu povo, e fora imediatamente condenado à morte.
Seus filhos seriam mandados para o lar de seu primo, o que Kwon tinha toda a certeza de que significaria a morte para eles, ou algo muito pior... Fora contido e levado para a Bolhitária até a hora de sua execução, mas para o espanto geral de sua nação, fugira!
Ninguém nunca, até então, fugira de tal prisão, pois elas são situadas nas mais longínquas e submersas partes dos seus pântanos gigantes.
Ninguém soube mais nada a respeito de Kwon a partir disso na Cidadela de Miuncus. Muito ouvi também, sobre o rumo de seus filhos, mas relatos outros me afirmaram, e comprovei que, eles não foram mesmo criados por Lombrunj, mas sim mandados para orfanatos em outras cidades de não-Quoigs. Isto sim pode ser considerado uma punição severa para tais crianças. Pois todos sabemos da reputação dos Quoigs em nossa terra, e poucos são os confiáveis.
Por último, sabemos de suas passagens então por Lumina em todo aquele alvoroço narrado pela Guilda da Informagia.
Claro que vocês devem se perguntar, e até afirmar, que é impossível haver um sujeito altruísta, dotado de boas intenções (ainda mais sendo um homem sapo), possuir poderes tais de um passado tão impressionante. Mas a verdade que vos segue é esta. Kwon fez seu caminho até se tornar um mestre reconhecidamente Dragão nas artes de combate. Muitos dizem que foi a convivência com aquele Elfo que o tornou assim. Mas seu parente, assim como seu histórico e os fatos ocorridos em nossa cidade, comprovam que este Quoig tornou-se por mérito próprio, uma Lenda.

Tudo isso segue e preenche uma grande lacuna de minha curiosidade, pois estou no caminho certo de encontrá-lo. Preciso encontrá-lo. Só assim poderei seguir o verdadeiro caminho do guerreiro, que em nossa cidade já fora deturpado à séculos.

Um grande abraço. E mande um beijo para sua mulher. De seu sempre amigo

Yannir Himagor

Primeiro encontro  

Posted by Harijan D

O mestre disse ao discípulo:
- Quando perguntarem sobre tua origem, direis: "De todos os lugares, e de lugar algum", compreendes?
- Sim, mestre! - respondeu o discípulo.
O mestre virou-se e saiu, a porta do templo se fechou, o discípulo deu meia volta, olhou para a estrada, respirou fundo, e andou... Por dias e dias.

Muito tempo depois. No meio do que para muitos é o nada, e onde para poucos é o tudo. Numa casa simplória de telhado baixo, aconteceu o seguinte...

- De onde vens? - perguntou o camponês.
- De todos os lugares, e de lugar algum. - respondeu o monge, que de aparência, mal era distinguido como tal. Apenas alguns poucos reconheceriam, pelas suas vestes, pois de resto, era definitivamente um Qüoig jovem e de olhar vivas de topázio.
- Bem, se quiser comer, vai ter que trabalhar, sapinho.
- Não há problema nisso. - respondeu o garoto-anfíbio de pele verde e levemente manchada.

O camponês fechou a porta e gritou para o Qüoig dar a volta. Chegou do outro lado daquele casebre, situado em alguma fazenda, lar de um homem de bem, tranqüilo, parido ali, na mesma cama que dormira todos os dias de sua vida, bem como seus pais, que agora jaziam embaixo da mesma terra que outrora fora palco de suas aventuras pueris. O camponês saiu pela porta dos fundos, e de inchada na mão, disse:

- Aqui está - disse o camponês entregando a ferramenta ao Qüoig de roupas maltrapilhas - vamos, sem lerdeza, pois a caminhada é longa, e vai ficar tarde. Precisamos retirar todas as batatas-rebeldes que pudermos para a janta.
- Não há necessidade da inchada - disse sorrindo o sapo - pra isso tenho as mãos!
O camponês quase se estropiou de gargalhar ao ouvir isso, dizendo sem ar:
- Meu filho, de onde pensas que vem? Do Céu? Pois vai ver que essas batatas não são chamadas de rebeldes à toa.

Catou meia dúzia de imensas sacas vazias de pano, colocou-as no ombro, e com um gesto de cabeça, chamou o Qüoig para segui-lo, indo em direção a plantação. À distância era possível ver aquelas colinas, verdejantes e totalmente reservadas para o plantio, exceto pelas estradas e as poucas árvores, formando, em visão periférica, um lindo e tranquilo local para se viver. Andaram por uma terra demasiada fofa, descendo uma colina, longa e cansativa, que forçava os joelhos exaustivamente, porém para aquele camponês, já acostumado com a vida árdua, não era grande esforço. O Qüoig, estava sorrindo com a inchada apoiada no ombro, fazendo pouco caso daquele passeio e do trabalho que estava por vir. O camponês achava tudo muito engraçado daquele sapinho, e estava se preparando para as lições de "Não falei?", costumeiras de casos de desdéns parecidos.

Passaram por algumas outras plantações, ainda sem o devido tempo para a colheita. Desceram e subiram mais algumas colinas de plantações, até chegar a um campo sem aparente planta alguma, apenas terra, que, aparentemente igual às outras plantações, possuía um cercado. Porém, de conhecimento apenas dos habitantes da região, tal cercado era profundamente fincado àquela terra, tendo apenas um décimo de sua parte respirando o ar da superfície. O camponês jogou as sacas ao chão, e disse:
- Agora, você vai batendo a inchada na terra para afugentar as batatas, senão elas não aparecem, aí, vamos voltar de mãos vazias.
- Não! - disse o Qüoig - Ninguém ficará sem seu sustento, nem nós, nem outros. Eu posso muito bem tirar estas batatas por mim mesmo, melhor o senhor esperar.
- Meu filho não pense que isso é brincadeira, - respondeu o camponês, já um pouco nervoso, pois fora o próprio Qüoig quem buscara trabalho, e agora fazia pouco caso do mesmo - tente você então, retirar uma batata com as próprias mãos, como tanto se gaba.

O Qüoig monge, então, vestido com um manto grande de mangas largas, que outrora fora um bonito manto branco e preto com adornos dourados agora desbotados e rasgados, resolveu retirá-lo antes de começar o serviço braçal, mostrando seu físico atlético, até então escondido. Para aquele homem do campo, que notara desde o primeiro momento que aquele garoto possuía um aspecto diferente dos demais de sua raça, tinha agora a certeza da fibra do garoto viajante, pois este transmitia serenidade e confiança em cada movimento. O sapo, então, arqueou-se, com os braços esticados juntou as mãos com os dedos esticados na altura do rosto, formando uma espécie de triângulo com os dedões e indicadores, permanecendo assim por alguns instantes, olhando com tom sério por entre as mãos. O camponês não entendeu nada, até que o monge abriu bem os braços, dobrando os cotovelos na altura dos ombros, num gesto que, para o camponês, era o de render-se a um bandido na estrada. Mas não durou muito, realizou um golpe rápido com a faca da mão direita na palma da mão esquerda, apontado na direção do solo, o que fez com que o camponês soltasse uma arfada incrédula, incapaz de entender o que acontecia, bem como se aquilo serviria para alguma coisa ou não. De certo, estava mais propenso para as chacotas de uma tentativa vergonhosa daquele forasteiro, que desde que chegara, comportara-se como um fanfarrão que nada teme e que nada subestima.

Antes de continuar, é importante fazer um adendo sobre tais batatas em questão. Diferentes das batatas comuns, estas possuem suas raizes agarradas fortemente ao solo ao longo de sua vida. É dito que uma vez plantadas, ao atingirem certo tamanho, perambulam pela terra como se fossem peixes n'água. O fato era que estas batatas possuíam pernas e braços, e de alguma forma, não gostavam de serem puxadas para fora da terra. Em outras vidas, poderiam ter sido seres superiores, porém agora, reencarnados e rebaixados para viver na terra. De fato estas batatas gostam de seus afazeres de tubérculos leguminosos, alheios aos Homens, mas, como tudo que servira para manter estes seres ditos superiores, eram criadas para simples, porém deliciosamente extraordinárias refeições, justificando sua exorbitante demanda em outras terras longínquas. A cerca de imensa profundidade, servira justamente para evitar a fuga das batatas, pois sua imersão à terra possui certo limite de profundidade.

Mas, como era dito sobre o tal sapo monge e o camponês, que, sem nem ter tempo pra terminar de processar o que falaria, viu o monge golpeando a terra, ao que no movimento contrário, puxou uma daquelas plantas, com um só despretensioso movimento. O choque da surpresa fez sua maxilar sentir o frio do solo, enquanto seus olhos poderiam ser comparados às luas que vagavam o céu em noite de Olhos Celestes, de tão abertas que estavam. Permaneceu mudo, deixando cair uma linha fina de saliva da boca ainda escancarada, observando pasmo o trabalho que demoraria uma tarde inteira, sendo realizada por um Qüoig frenético de disposição só não tão surpreendente, quanto sua força e rapidez. Corria para lá e para cá, seguindo aquelas batatas que faziam jus ao nome, puxando com cada braço uma por vez, ao tempo que arremessava-as num monte formado pelas mesmas logo ao lado do camponês, que agora tentava recompor-se, inserindo-as tais com rapidez, como que não querendo fazer feio por ficar parado diante do jovem sapo monge. As batatas caíam no chão aos montes, e o camponês, já com dificuldade de capturá-las, ofegava pedidos mudos de socorro, enquanto uma ou outra mergulhava na terra, pois para tais batatas andarilhas do subsolo, fora dele, pareciam crianças a aprender como andar.



- Hahaha! - riu o sapo - Não é uma boa idéia ficar sem batatas, vou ajudá-lo!
Rapidamente, o monge correu com velocidade desigual sobre aquela terra macia, com a eficiência e a leveza de uma folha levada por um vento forte. Recapturava as batatas que buscavam a terra, enquanto soltava expressões do tipo "Quem muito cava pouco enxerga!" ou "Aquele que corre para casa, tropeça na estrada!".
Poucos daqueles legumes incomuns esconderam-se, mas o camponês estava feliz, pensava no quão satisfeito os Ministros dos Campos ficariam e recompensar-no-iam, pois uma vez com tantas batatas, esperava receber, na mesma proporção da aparente abundante colheita, gratificações de seu Lorde.

Naquela noite, comeram tantas batatas quanto puderam. O sapo dispensou o leitão sacrificado com tanto gosto pelo camponês, pois é contra sua conduta comer restos de outros animais, ficando apenas com os legumes, grãos e frutas, o que teria provocado mais uma piada do anfitrião, não fosse as indiscutíveis aptidões extraordinárias do peregrino moço. No final, o monge estava feliz por ver o homem falar tanto sobre como tudo aquilo era bom, e empolgado, resolveu ceder às perguntas pertinentes do simples homem em relação à origem de sua força. Falou então sobre o Monte Ajrun, e o Templo da Aurora Dourada. De sua chegada ao local quando criança, de seu treinamento, e de seu muito humano mestre, que havia ensinado-o tudo que sabia, de varrer o chão, até o segredo do caminho da Luz. Pediu, depois de tanto falatório, para que tudo que tivera escutado fosse mantido em segredo. O camponês, muito feliz por ouvir tantas histórias, consideradas aos seus arredores como lendas, concordou em manter tudo em segredo, resolvendo então fazer o que considerava certo, retribuir contando sobre si. Mas o sapo disse para não gastar energia à toa, pois já sabia de quase tudo. O camponês não entendeu, considerando-o por vez louco, então, o sapo comentou sobre as visitas sorrateiras que o camponês fazia à filha de seu compadre, enrubescendo o simples homem, mas o sapo riu bastante, coaxando por algumas vezes, dizendo-lhe que daquilo não havia mal algum, pois se era recíproco, não estava errado. A conversa se estendeu por muito tempo, até que cansados de tanta fartura e conversas fiadas concordaram em pernoitar.

No dia seguinte, o monge partiu, e na despedida, o camponês perguntou-lhe o nome. "Kwon" era como se chamava, retribuindo com um "Até logo ver, Cidanis". E sem olhar para trás, o monge se foi pela estrada que cruzava aquelas colinas verdejantes.

Naquela mesma tarde, o camponês não havia trabalhado. Tão excitado com o surgimento de notória pessoa em suas terras, foi até a casa de seu compadre, e não apenas levando a felicidade da moçoila tão comumente vista às escuras, fez questão de reunir todos daquela família que pouco via, unicamente para contar sobre a figura ilustre. Relatou todos os feitos do sujeito de capuz, o que despertou a curiosidade de tal modo nos seus ouvintes, que o monge, de súbito, ganhou poderes que nem mesmo ele fazia idéia, sendo, obviamente, exageros do narrador em sua empolgação descontrolada. Era óbvio que, devido aos relatos, muitos daquela casa desconfiaram da veracidade do ocorrido. Donnui, o menino mais novo, abrira um sorriso desde o momento que ouvira sobre o monge, pois estes já permeavam seus devaneios fantásticos em histórias contadas por sua mãe, esta, que ouvia atentamente, já condicionada a criar novas histórias para o filho antes do sono. A filha estava um pouco inquieta, pois o camponês preferiu, naquela tarde, primeiro contar o ocorrido, depois fazer-lhe companhia. O pai da família, companheiro de ofício, e compadre, ouvia tudo com o cenho vezes franzido, vezes contido, sem esboçar uma palavra sequer. Mas após tudo que havia dito, a família toda perguntou ao mesmo tempo, e em unis som, de onde era o tal monge. Vendo a face de expectativa dos seus vizinhos, não agüentou, contando sobre a conversa que tiveram durante a noite, em todos seus detalhes. O compadre ouviu tudo com atenção, enquanto acendia e fumava de um espesso, porém bem adornado cachimbo, hábito tradicional daquela região.

Despediu-se da família, mas resolvera voltar, no método matreiro de costume, quando a filha irrompera na sua saída pisando-lhe no pé, senão o camponês teria voltado para casa, satisfeito apenas com os relatos que não saiam de sua cabeça. Estes que só sumiram por um tempo, graças aos dotes, muito bem guarnecidos pelo trabalho campestre daquela bela humilde rapariga. Voltou para casa só no fim de noite, saindo pela janela do quarto da moça.

Acordando em casa, com o costumeiro desagradável frio além cobertores, retomou a consciência rapidamente quando percebeu que seu distúrbio do sono havia se dado pela chegada de alguém, que mantinha uma batida constante e seca na porta, quase que pondo-a abaixo. Espantou o frio rapidamente com um pulo da cama, pegando em seguida um casaco surrado, que permanecia na estante velha. Abriu a porta aos tropeços, dando de cara com uma superfície dura e ainda mais fria que aqueles ares, caindo em seguida no chão, levantando-se espalhafatosamente percebendo que a tal superfície era de fato o peitoral de uma armadura escura, unicamente entalhada nas forjas de um castelo imenso e muitíssimo distante dali. A cada passada, o chão do casebre estremecia, acelerando o pulso do pobre camponês, bem como a possibilidade do humilde lar vir abaixo. O sujeito dentro da armadura era largo, e seu elmo, fechado, não permitia ver feições do seu rosto, apenas a fumaça resultante da respiração naquele lugar frio. Do topo elmo, uma plumagem rubra erguia-se, tombando para trás. As ombreiras eram grandes e com detalhes pontiagudos, bem como outros aspectos do restante que compunham, cogitavam, à vista, ser a veste de batalha em questão, injuriosa em contatos bruscos. Da espada que lhe pendia às costas carente de bainha, pouco o camponês pode ver, senão relances de sua lâmina negra, larga e cumprida, bem como um cabo, de jóia e guarda douradas. Levantando a viseira do elmo, revelando uma face barbuda e de poucos amigos, olhou para o pobre camponês, que ao lado daquele ostensivo poderio de batalha, fazia-o sentir-se uma pequena minhoca terrestre. Foi quando o cavaleiro disse:
- Traga!
Ao que, o camponês, imediatamente dirigiu-se até a dispensa de sua casa, de fato já esperando receber uma mínima palavra que alegrasse seu diminuto ego de lavrador. Mas parecia que aquelas batatas não estavam tão dispostas a isso, pois na demasia de sua visita à casa de seu compadre, pareceu-lhe que alguém arrombara a porta dos fundos, e pelo menos três quartos daquelas batatas-rebeldes haviam simplesmente sumido. Cogitou a possibilidade de aquele monge ser na verdade um ladrão de qualidades excepcionais, gerando raiva, porém no seu âmago, mais medo, pois o sapo não era um tal qualquer. Olhou para os lados, e sem saber o que fazer, fechou a porta, e ao virar-se para retornar, deparou com o cavaleiro já se servindo do chá que havia perto do fogareiro antes de dormir, este, percebendo o camponês de mãos vazias, levantou-se produzindo um sonoro tilintar de metais chocando-se, indagando em seguida:
- Onde está?
- É que... - gaguejou o pobre homem - bem... Acredito eu, meu senhor...
- Muito bem, - interrompeu o cavaleiro - vou ter que derrubar sua casa para achar o salafrário...
Mal terminando seus dizeres, o camponês pôs-se de joelhos a prosternar, suplicando para que não o fizesse, repetindo inúmeras vezes que, dali, não chegara nem abrigara ladrão algum, e se cometeu algum pecado, foi o de não ter guardado, de forma adequada, sua tão sofrida e farta colheita semanal, omitindo sua verdadeira procedência.
O cavaleiro então, disse-lhe:
- Caso não saiba, há um bandido percorrendo as vastas terras de nosso senhor. Trate de ficar em alerta, e use isto caso encontre-o.
Tirando de dentro de algum bolso, situado em algum local na roupa apertada pela grotesca armadura, que com muito esforço adentrava a mão para tirar, deu para o camponês uma espécie de bola de papel, adornada em cada milímetro de sua circunferência, com uma espécie de corda saltando de seu interior. Em sua curiosidade fatídica, o simples lavrador tratou de começar a, assim que segurada a esfera, puxar tal corda, mas antes de realizar a façanha ignóbil, o cavaleiro deu uma tapa em sua mão, com tanta força que fê-lo largar a bola no ato.
- Eu disse para puxar a corda? - rosnou o cavaleiro, inclinando-se ostensivamente o cavaleiro, quase encostando sua face na do camponês, que por sua vez, fechava os olhos com força, buscando conforto para a dor em seus braços. - Se não sabes usar, pergunta-me, ao invés de remexer como um tolo.
- Sim senhor... - mesurou o camponês.
- Trate de ir à colheita, pois não vim aqui como mensageiro, e sim para cumprir minhas obrigações de Ministro. Traga-me rápido a colheita semanal.
- Er... - começou o camponês, sem olhar diretamente para os olhos do cavaleiro, como de costume - Minhas batatas fugiram... Todas elas.
Em claro desassossego, e beirando a impaciência violenta, o cavaleiro respirou fundo, contendo-se de tal modo, que apenas sua aura agressiva fez o camponês mijar-se. Sem falar uma palavra, virou-se para a parede mais próxima da casa, e trespassando-a como papel, seguiu colina a baixo, deixando o camponês urinado e impotente, à beira do suicídio por sua incompetência, no entanto, feliz pela clemência, nem um pouco comum aqueles, porém demonstrada por este cavaleiro.

Último e primeiro Tesouro  

Posted by Harijan D

Diário de Bordo do Capitão Devys Naryall Jow'nys, vulgo popular, Sangue Negro

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Hoje, graças ao bom tempo, podemos finalmente sair ao convés. Embora o Dama do Mar ainda esteja avariado, graças ao patife calhorda velhaco e covarde, muito mal e que se vá com os peixes do inferno, o Imundo Suja-Barba - marca de cuspe -, meus homens agora recuperam-se da batalha com afazeres de paz.

Como sempre, não perdi nada nos ataques, pois como já é de praxe da vida que escolhi, muito se perde quando muito se tem. Logo escolho o pouco que vale muito, sendo assim, complicado é perder de vista meus tesouros. Atualmente, dos três que mais almejo, permaneço apenas com dois. Rogo todos os dias para que todas as nereidas, sereias, e espíritos do mar, resgatem meu último, primeiro e eterno tesouro.

Busco acreditar que, embora muitas vezes desconfie do contrário, não fora por culpa daquele que concedeu-me o segundo tesouro, que não estás ao meu lado. Não cabe a mim julgar o que não vejo, e embora saiba, que de todos, ele seja o escolhido para guarda-lo, não necessito de mais nada, a não ser seu retorno aos meus aposentos.

Responsabilizo-me unicamente pela nossa separação, e renego todo meu orgulho do maior e imbatível espadachim dos mares que sou, se assim tiver que ser para tê-lo outra vez.

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Chegamos até o Grande Redemoinho, e estaremos em poucos dias no Espinho do Diabo. Precisamos repôr alguns mantimentos, mas não é este meu objetivo naquele chiqueiro. Aquele velhaco há de responder à Confraria seus feitos, e não descansarei enquanto o frio aço da minha justiça não se fizer sobre suas, das quais não tolero mais, inconcebíveis ações.

Mas um detalhe me fez preocupar. Avistei, sem que meus homens do fato soubessem, nas encostas pedregosas, um indivíduo pouco comum a essas bandas, acima da entrada da caverna que serve de atalho para o Golfo Sereno. Estava sentado, suas vestes, que não permitia sua total identificação, bem como as armas, não pertecem a esta terra. Permaneci observando-o, era como se estivesse há dias esperando alguém... ou me esperando. Mesmo adentrando aquela passagem cavernosa, que fazia nossa embarcação descer em velocidade exponencial, a sensação de estar sendo observado não se fora. Achei melhor não interpôr a preocupação em meus homens, pois se eles não o notaram, fico eu imaginando o quão perigoso pode ser. Talvez os feitiços daquele desprezível não tenham se dissipado totalmente, talvez.

Dentro do atalho, os Carangajos subiram e pularam à bordo violentamente. Abriram alguns buracos pelo casco, vela e convés, que transtornaram o bom humor dos meus dois construtores em segundos. Como de costume, as suas tão suntuosas boas vindas aos visitantes deste túnel-passagem terminaram no instante que avistaram-me. Engraçado é, perceber o quão não mais espertos estão, como costumavam ser, pois minha bandeira permanecia hasteada, justamente para evitar tais desgotos, e mau-humores. Pegaram nossa oferta sem muita selvajeria. Claro, sabem que comigo, não se deve brincar, ha HA! Afinal, da última vez, adorei aquele banquete de caldo de sirí.

Saímos do túnel, e no mesmo instante que fomos cuspidos para o Golfo Sereno com a violência das águas, o terrível ocorreu, aquele sujeito, de antes da nossa entrada à passagem, estava agora, acima da saída, sentado na mesma posição que eu havia visto-o antes, do outro lado.

Embora eu já tenha visto o inacreditável. Lutado contra o invencível. E vencido diversas vezes a Crueldade dos Mares. Não consigo imaginar quais poderes aquilo possui, para conseguir, em segundos, atravessar por terra o atalho que levamos, de barco e com uma violenta corrente impulsionando-nos tunél a baixo, cinco horas para completar. Ficou no entanto, claro que tal evento possui intenções secretas, e por via das dúvidas, deixei uma pequena tempestade de presente naquela saída. Se retornar a vê-lo, definitivamente não é um sujeito de faculdades levianas. Espero que nenhuma outra embarcação por aquelas águas, alí atravesse.

Nos distanciamos o suficiente para perder aquela costa de vista, assim como aquele tal não identificável. Meus homens não, mas posso ver o Espinho do Diabo, o qual aportaremos em dois dias. Evidentemente não posso negar minhas assombrações ao meu imediato, mas omiti o que vi.

Graças ao meu bom nome, preciso navegar com a bandeira de um mercador menor de uma outra terra que outrora estivemos, para evitar desagradáveis encontros. E se não fosse pelo meus amado tesouro, que torno a buscá-lo em alma e espírito, teria eu, pessoalmente, decidido me apresentar para aquele de roupas e poderes estranhos.

Cesso agora, por alguns momentos, meus relatos, sempre pensando em ti, tesouro meu.

No mais, temo pelo pior. E que as Águas Escuras nos guiem.

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Clÿo vs Amnu  

Posted by Harijan D

Os dois monges caminhavam pela estrada.
- Se bem me lembro, da luz vieste à vida.
- Porém, da escuridão vieste, sem saber, homem ou mulher.
- Á luz da verdade, estamos aqui caminhando.
- Para onde vamos e o que acontecerá, não sabemos.
- Em nossos passos, há verdade em cada pisada.
- Se souberes o que penso, talvez mude teus saberes.
- Que há conflito, não resta uma dúvida sequer.
- Mas não cabe a nós decidir quando e onde, também.
- Nos Céus, podemos ver as infinitas estrelas brilhar.
- No imenso Vazio atrás, quais outras se escondem.
- Se ao Corvo circundamos, outros sois vida criavam e criarão.
- Se há o Breu, quantas possibilidades hão?
- Ao que nas Nuvens iremos.
- Ou não...

Pararam. Observaram-se e se prosternaram. Em guarda permaneceram. E após diversos ciclos, moveram-se.
A Lucidez de Asura fez dalí, duma antiga montanha, antes pertencente à uma bela serra, um bonito vale.
O Delírio de Ruzaho transformou a floresta logo ao lado, em campina pronta para o arado.
O raio de Luz subiu aos Céus. A sombra de Escuridão desceu à Terra.
E a trama daqueles golpes que só se encontrariam na penumbra se deu para sempre.
Na dúvida certa, as cores do crepúsculo.

Era uma vez um tolo...  

Posted by Harijan D

Arn'hen Dumbaut era seu nome. Um sujeito alto, de porte físico que exuberava saúde, e aliado ao seu ímpeto implacável, era um legítimo realizador de façanhas inacreditavelmente estúpidas.

Não fazia nada demais da vida. Acordava todos os dias depois do nascer do sol, ficava assistindo a programação estúpida que passava naquela magivisão, ao som daquela chuva incessante e mórbida caindo sem parar além de sua janela, como todo habitante de sua cidade. Completara vinte e poucos anos há poucos dias, mas não deu festa nem comemorou, pois não tinha amigos. Muitos de seus vizinhos estranhavam seu comportamento apático, mais ainda, o dos seus pais, por deixarem um filho solto na vida. A verdade era que eles tentaram de tudo para fazer do jovem Arn'hen, um grande artesão das letras, na intenção de manter o legado dos Dumbaut, escrivães renomados de Lumina.

Não terminara seus anos de ensinamentos básicos na Academia das Letras Comuns, pois fora expulso, acusado por diversas arruaças, causadas em sua maioria, por não pensar muito antes de agir, ou falar. Fora muitas vezes detido em castigo por respostas inapropriadas aos mestres, bem como maus tratos aos colegas. Estes, que jamais ousaram semear amizades com Arn'hen. Os poucos que tentaram, desistiram da idéia após a primeira troca insuportável de palavras. Certa vez, fora obrigado a lavar louça durante todo um ano, de todos os alunos, ao ter, por extravagância, comido secretamente, antes, durante, e diversas vezes após o horário de almoço. Mas, descoberto foi, por quase atear fogo na academia inteira, quando fora esquentar a comida e esquecera seus livros do lado do forno ligado, o que provocou uma imensa labareda e a perda de cinco meses de mantimentos.

Tudo isso chateava Arn'hen, mas de uma coisa ele gostava, e muito... Atear fogo. Não fora por acaso que os livros, queimando, passaram misteriosamente seu calor através de toda a cozinha, incinerando cada elemento que dali ateasse fogo.
Todos sabem o quanto o fogo é encantador, com sua dança inconstante de ritmo frenético, imprevisível e hipnotizante. No entanto, alguns dizem nunca terem visto alguém com tanta voracidade pelo fogo e sua proliferação, como Arn'hen. Somado ao seu caráter estranho e comportamento imprevisívelmente explosivo, ganhava assim alcunhas que muitas vezes nem obtinha conhecimento. Algumas delas eram: estúpido faisquento, idiota das chamas, cabeça de explosão, cérebro torrado, aquele-que-não-se-deve-emprestar-isqueiros-lâmpadas-ou-quaisquer-coisa-que-ateie-fogo, entre outros...

Mas algo na vida de Arn'hen ajudava-o, e de alguma forma, acreditava em sua capacidade, que evidentemente ninguém percebera. Era seu irmão gêmeo, Lud'hen Dumbaut. Este, apesar da aparência idêntica, era muito diferente do irmão. Eloqüente, pensador, escrivão de altíssima categoria e habilidade, e com seu modo descontraído, era um verdadeiro ímã de amigos e admiradores. Em pouco tempo, logo após se formar na mesma academia que seu irmão fora expulso, passou no exame e foi admitido na Academia de Estudo das Técnicas Mágicas. Em menos de dois anos, já comportara dentro de sua mente conhecimentos mil sobre diversas magias, assim como toda teoria e história a seu respeito. Absorvera tudo que a academia dispunha, de livros secretos, até truques pessoais de professores veteranos da Casa. Era então, um renomado mago, conhecido em diversas partes do mundo, não apenas na Capital dos Homens.

E de algum modo, Arn'hen não sentia inveja, nem nunca havia sentido, ao contrário, orgulhava-se sinceramente das vitórias de seu congênere. Em certos momentos, principalmente quando outros bem diziam a Lud'hen, e ao nome dos Dumbaut, sentia como se fosse a ele dirigido os elogios, o que reconfortava-o plenamente. E embora soubesse, inconscientemente, que os comentários aos méritos do irmão agradavam-no e muito, e que para ter o mesmo para si precisaria empenhar-se igualmente, cansava-se no exato instante que imaginava os esforços necessários para tal.
Sua paixão pelo fogo consumia-o, assim como sua vontade de queimar a tudo.
Seu irmão tentara por diversas vezes incitar-lhe a curiosidade maior, o desejo pelo saber. Mas era inútil. Depois de ter sido expulso da academia, Arn'hen não agüentava ler uma página sequer de qualquer livro.

Lud'hen voltara de uma difícil jornada para além Norte de Lumina, com objetivos não revelado à seu irmão e família. A primeira coisa que fez ao chegar à cidade-nunca-seca, foi procurar o irmão e saber o que fazia da sua existência.
Encontrou Arn'hen em uma Guilda de Construtores, sendo um operador de forno para tijolos de lama-ferro. Fazia assim, tijolos noite e dia. Decidira morar na sede da Guilda, e mesmo não tendo a atenção de outros funcionários, que já o tratavam com o respeito mínimo pela camaradagem de serviço, passava mais tempo no forno do que longe dele.

O reencontro não foi muito animador. Arn'hen transbordava indiferença a tudo, até mesmo ao seu irmão, embora nesse caso fosse apenas externamente. De fato admirava-o muito. Mas havia passado seu aniversário sozinho, e pouco havia feito, senão ficado um pouco alegre, após ter tomado uma dose daquelas bebidas, que volta e meia usurpava da garrafa de um companheiro de trabalho, de teor alcoólico forte e gosto amargo.
O irmão gênio perguntou ao tolo:
- Não te entendo... Sei de seu desinteresse para os caminhos de uma vida gratificante. Mas estar aqui, assando tijolos... Acha isto realmente digno?
- Apesar de viajar tanto, - replicou Arn'hen, enquanto coçava a cabeça e já se preparando para inserir uma nova leva de tijolos ao fogo - parece que te faltam miolos pra completar a Grande Sabedoria. Estou feliz aqui, trabalhando no forno.
Lud'hen mantinha um semblante rígido, como que, nas muitas raras ocasiões, transparecendo um ar desaprovador ao local onde o irmão acabara, ou melhor, escolhera estar, e voltou a questioná-lo:
- Não tens vontade de estudar? De conhecer mais sobre a origem das coisas, o porquê disso tudo? - falou fazendo um gesto circular com ambas as mãos.
- Fui expulso da academia. Não quero mais ver a cara daquela gentinha nunca mais. Quanto mais estudar.
- Mas lendo você pode viajar quilômetros, eternidades, sem sair do lugar.
- Ler é um estorvo, desgasta muito...
- Virar páginas cansa-te? - indignou-se o gênio, ao que provavelmente se indignaria mais, caso soubesse que na cabeça do irmão pairavam pensamentos destas faladas páginas, porém queimando uma a uma - E viajar? Conhecer novos lugares, novas pessoas? Não te interessas?
- Nem um pouco. Não gosto das pessoas, sabe disso.
- E monstros? Caçar, lutar, ganhar conhecimento na área militar, o que acha?
- Arriscar minha vida? Ou para ficar ouvindo ordens? Ser tratado como cão? Menos ainda...
- E meditar? Por que não procura conhecimentos ocultos através da paz de espírito?
- Nesse caso vou perder tempo sem nem ao menos produzir nada.
- Fazes o mesmo estando aqui.
- Pessoas precisam de lugar para morar. Eu ajudo fazendo tijolos, para futuramente serem usados. Não perco meu tempo à toa.
- Tudo bem, apenas quero te mostrar uma coisa que trouxe da minha última viagem. Mas preste atenção no que vou dizer, não ouse tocar nele quando mostrar-lhe, as conseqüências podem ser desastrosas.
Lud'hen então puxou de um dos bolsos, um pequeno saco aveludado púrpura. Antes de revelar seu conteúdo, fechou os olhos, em seguida começou a massagear suavemente. Ficou por alguns minutos assim, até que Arn'hen, já entediado, voltava-se para a enorme pá de pegar tijolos, quando Lud'hen interrompeu-lhe, dizendo para não tirar os olhos dele. Assim que parou, procurou algum lugar agitando a cabeça, e dirigindo-se para uma bancada sem tijolos, depositou o saco com muita cautela, puxando-o com a precisão de um cirurgião realizando uma operação delicada. Era possível apenas ouvir o som do fogo crepitando, pois nesta hora, apenas os dois se encontravam no local. O silêncio profundo da ocasião desconfortava Arn'hen de tal modo, que já mais do que entediado, aspirou com força, sonorizando o ato propositadamente. Tal quebra na concentração admirável em que Lud'hen se encontrava, fê-lo antecipar seu movimento, puxando o saco rápida e desastradamente. Ao sair, o conteúdo iluminou todo o prédio em que estavam, sendo possível, para quem estivesse nas ruas e aos redores, ver luzes das janelas e frestras. Tal claridade no ambiente subitamente desapareceu. Ao abrir os olhos, Arn'hen viu Lud'hen contorcendo-se em movimentos desconexos e estranhos. Perplexo, chegou perto para observar, e contemplou a mais bela visão de sua vida. As mãos de Lud'hen desenhavam uma forma mágica esférica estranha no ar, em seu centro havia uma criatura pequena de lava incandescente, em posição fetal, muito similar à uma estátua de fogo. A criatura se debatia, se retorcendo num aparente cárcere sofrido. Lud'hen, que agora estava banhado em suor, contraia seus músculos enquanto recitava palavras alheias ao entendimento de Arn'hen. A situação não parecia boa, mas Arn'hen não conseguia de forma alguma tirar seus olhos da criatura. Estava encantado. Tal encanto fora transformado em pena pelo pobre ser, e sem entender o porquê da situação, pediu para o irmão parar. Não obteve resposta, apenas um sonoro "SILÊNCIO!". Nunca recebera uma reprimenda do irmão gênio, e ficou magoado por isso. A mágoa, somado ao sentimento de ver a criatura aprisionada, rapidamente transformou-se em revolta. Observou novamente a criaturinha, que agora emitia um gemido baixo, e empurrou o irmão. A forma mágica se partiu, e desvaneceu. A criatura de fogo, descontorceu-se e esticou-se, emitindo neste mesmo instante, uma gigantesca explosão de fogo.

A explosão destruíra todo aquele edifício, bem como os outros edifícios adjacentes, criando uma enorme cratera naquele platô. Os Domadores do Fogo já se encaminhavam para o local. Não houveram tantos mortos, apenas algumas dúzias, e comparado com outros incidentes desta cidade, não era um acontecimento tão grande, portanto, não seria nada mais que uma breve passagem no jornal da manhã seguinte daquele distrito.
Em pouco tempo, cerca de mais de meio de ano, outro edifício já ocupava o local, desta vez, era um edifício residencial, erguido por um Burguês que desejava uma moradia adequada para a família de seus empregados.

No dia do ocorrido desastre, muitos ouviram o som daquela explosão, poucos a viram, menos ainda entenderam-na, e apenas um homem permaneceu vivo daquele incidente. Arn'hen Dumbaut era seu nome. Mentes comuns duvidariam do extraordinário fato ocorrido. No micro instante daquela explosão, ao ter seu corpo desintegrando naquele milésimo de segundo, Lud'hen pôde ver, em espírito, aquilo que demorou muito para conseguir impedir, ver o gênio do fogo em total liberdade. Mais perplexo ficou, ao procurar pelo irmão, e notar que este, a vida em nada tinha perdido, talvez até estivesse melhor. E realmente estava. Arn'hen nem fazia idéia do significado da sensação do momento, apenas que havia se tornado o um com o fogo. E foi desta situação, que o inesperado aconteceu, o gênio falou:
- Tu amas o fogo - olhando para Arn'hen - mais do que pude ver em outro ser qualquer. Por simpatia tal, que me agrada e muito, viverás. Vemos-nos por aí!
Ao terminar de falar, o gênio distorceu sua forma rodopiando, desvanecendo para todos os lados, fundindo-se com a explosão.

- QUE?! - gritou Lud'hen, em espírito. - Isso só pode ser brincadeira! E das piores!
Arn'hen, que agora saía daquele torpor mágico que se encontrava, percebeu então que seu irmão sumira, bem como aquele prédio onde estavam. A chuva não estava forte, mas caía constantemente, encharcando-o antes mesmo de voltar à si. Começou a ficar sem ar, entrara em estado de choque, pois percebera a besteira que fizera. Não ouviu as palavras do irmão, e por isso, este havia desaparecido provavelmente morto. Saiu dos destroços sem saber para onde ia. Começou então a chorar, sem saber o que dizer para seus pais quando os visse.

- Pode parar de chorar!
Da frase que ecoou em sua cabeça, acreditou estar louco, ouvindo vozes do além. Vozes iguais a do seu irmão.
- Seu desgraçado! Incopentente! Desafortunado e desaventurado seja! Me fez perder tudo aquilo que adquiri, e pior, tudo aquilo que ainda tinha de fazer! - gritou a voz de seu irmão.
Arn'hen Estava mais confuso do que nunca, chorava e soluçava palavras de perdão e arrependimento.
- Não adianta pedir desculpas depois de ter feito a merda! - bradou o espírito de Lud'hen. - Agora, escute bem, vais estudar tudo que estudei e viajar tudo que viajei. Vais ser reconhecido no mundo inteiro como o meu sucessor. O irmão que nunca apareceu, mas que vai fazer muito mais do que fui capaz. E se pensar em desistir, tornarei sua vida um pesadelo! Esforce-se ao máximo, que daqui por diante, pensarás por dois!

Má digestão  

Posted by Harijan D

O clima estava ameno, a luz era tão branda que dificilmente olhos normais enxergariam além do palmo. O chão estava repleto de grama e outras pequenas plantas rasteiras. Seus passos, pesados e desregrados, guiavam-no sem direção. Já fazia algum tempo, seu estômago permanecia repleto apenas de ar, sendo preenchido periodicamente por porções de terra úmida, com alguns insetos e lascas de árvores, porém, nada disso convém com sua dieta imprescindívelmente carnívora.

Vagou por algum tempo sem esperanças. Já havia degustado todos os animais menores que encontrara. A fome era tanta que os comera assim que os capturara, sem nem sequer pensar em guardar para um futuro cozido. Seus sentidos desvaneciam negligenciando-o, pois carenciava energia. Seu olfato não sentia nada, e a vista, que já não era boa, por diversas vezes iludia-o, sendo as piores destas em vezes que vaga-lumes acabavam por voar em duplas, simulando pares de olhos brilhantes, quase desgastando-se inutilmente, pois sempre pensava, antes de mais nada, com as covas nasais.

A floresta permanecia quieta, brincando com seu resquício de sanidade. Andou tanto sem prestar atenção por onde ia que, sem perceber, foi surpreendido por raios solares. Estes perfuravam as copas ondulantes das gigantescas árvores daquela floresta. Na encosta de uma raiz imensa, reenconstou em um tronco que ali jazia, evitando assim, aquela incômoda claridade. Baixou a cabeça e deglutiu um pouco da lama sob seus pés. No ímpeto de driblar um pouco da sua fome, não percebeu a imensa pedra que trazia escondida no bolo de terra, e engasgou-se. Tossiu duas vezes, e na terceira retornou-a à boca com o auxílio de uma pancada na altura do estômago, triturando-a com seus dentes, engolindo seus farelos. Urrou de raiva quando seu estômago contraiu dolorosamente, e no mesmo momento, percebeu! Saltou em desespero, sendo alvejado pelos raios solares, mal sabendo para onde ia, apenas guiado pelo nariz. Derrubou algumas árvores menores que ousavam interpor seu caminho, saltou e aterrizou em um elevado na esquina de um rio.

O cheiro estava forte, tão forte era, que seu estado físico mudara da água para o vinho em segundos. De olhos inquietos perscrutando cada nuance do ambiente, dava a cada virada brusca de sua cabeça uma grande e furiosa tragada de ar, buscando sentir o cheiro com clareza, assim como a direção do dono.
A luz refletida na água ofuscava seus cegos olhos, que não foram suficientemente rápidos em perceber aqueles dois chicotes, voando rapidamente, proveniente de direções opostas mas com o mesmo alvo. A velocidade deles era tanta, que cortavam as folhas de outono esvoaçantes, podadas pelo tempo antes mesmo destas chegarem ao solo. Em posição transversal uma à outra, acertaram-lhe em cheio. Um chicote abateu na altura dos joelhos, o outro preenchia a coluna enquanto lançava-o rodopiando no ar, na direção da outra margem do rio.



Rolou algumas distâncias, levando consigo rochas, plantas e alguns animais menores, que por infelicidade, habitavam ali.
Antes de levantar a cabeça, ouviu um assobio do vento, acompanhado de um cheiro deleitoso, vinda da fronte. Ergueu a cabeça e apontou o nariz para frente, e numa aspirada forte de ar, sugou aquele ser pequeno. Tanta foi a potência daquela sucção, que elevou o infeliz atacante do solo, fazendo a certeza de um perfeito reforço alimentar voar em sua direção. O choque foi intenso. Sua palma havia preenchido toda a parte lateral, das costelas às pernas do corpo daquele pequeno ser, que nem mesmo teve tempo de reagir, fora engolido. Sentiu-o lutar, então removeu todo ar de seus pulmões, e inspirou ao máximo que pôde, para depois socar suas próprias costelas, que de tanta violência romperam a parede do estômago, cessando os movimentos de luta no seu interior, bufando todo ar em seguida. O alívio era incomensurável, sendo evidenciado com o som gutural do ar, acompanhado de diversos outros detritos, no colossal arroto de alguns minutos.

Alimentado, e de sentidos reaguçados, pulou agilmente, esquivando-se de uma chuva de folhas pontiagudas que viera em sua direção. Agarrou-se em um espesso galho, observando o estrago daquele ataque ao local onde estivera antes, e se não fosse pelo aperitivo revitalizando seu olfato, dificilmente teria detectado o outro ser logo acima de sua cabeça, no galho onde se agarrava. Rapidamente agarrou a perna deste, soltando-se em seguida, caindo ao solo à toda velocidade, e com incomensurável brutalidade, antes mesmo de pisar ao chão, arremeteu a pobre criatura ao solo. Colocou o pequeno ser abatido e desacordado dentro do saco velho que trazia consigo, amarrado ao cinto improvisado de cipós e panos velhos. Mal teve tempo de fechar o saco, e suas narinas converteram, cada buraco para um lado, apontando os inimigos que agora corriam em sua direção, cada um proveniente de direções diferentes, na tentativa de flanqueá-lo. Sorriu, afundou o pé esquerdo no chão, jogando lama no rosto de um que vinha furiosamente à frente. Este, parou abruptamente sua investida, tão grande fora sua surpresa pela finta, que reverberava ao mesmo tempo em que se desvencilhava da sujeira que o cegara. Ao ver que seu truque funcionou, emitiu um som estranho, parecido com uma risada desajeitada de criança, e sem olhar, jogou o saco na direção do outro atacante, que mudou de postura rapidamente para agarrar o seu companheiro ensacado, projetado ao seu peito. Sem deixar o primeiro distraído recompor-se, caiu sobre ele seu punho esquerdo cerrado, derrubando-o ao chão. Sentiu sua barriga remexer, achou que o lanchinho não fora digerido direito, mas, ao virar-se, percebeu que havia tomado uma pancada do segundo, que já recuara um semi passo para desferir outro golpe, ficando à frente do saco jazido no solo. Este, foi lento na tentativa, ou não causara suficiente impacto com o primeiro golpe, pois recebeu um chute que o arremessou longe.

Ambos estavam desacordados, e agora, faziam companhia ao primeiro capturado. Sentiu a barriga roncar, a fome ressurgiu à tona. Desde sempre, graças aos seus dotes nasais, utilizava o olfato como o principal sentido, detectando inclusive, o gosto das coisas antes mesmo de prová-las. O cheiro daquele que agora o fazia contorcer-se, não parecia ruim na hora, ao contrário, o cheiro do quebra-jejum era extremamente agradável, como o de uma fruta de polpa voluptuosa e carnuda, exuberante em sabor. O aperitivo não era dos mais gordos, cessando mais sua ânsia pela satisfação, do que a fome propriamente. Mas a fome era tamanha, que ainda necessitava de mais. Aquele aperitivo serviu-lhe bem, pois poderia ter sucumbido ao súbito ataque daqueles seres saborosamente detestáveis.

Embora, menos que antes, ainda faminto, retornava feliz por onde percorrera. Agora, sua semi-lucidez permitia-o perceber diversas plantas, fungos, insetos e outras maravilhas naturais que, como tempêro, complementavam a sua tão apreciada e divertida culinária.
Pensava em quais pratos poderia, com o achado do dia, dar-se ao luxo de fazer.
Talvez pernas grelhadas, ou tripas ao molho de cogumelos-cansados. Este era bom, mas dava um sono terrível, possivelmente fazendo-o acordar com mais fome que estivera antes de comer, de tantos dias que poderia passar dormindo. Claro que isso variaria de acordo com a proporção de cogumelos utilizados na receita, mas ele se conhecia o suficiente para saber que não era uma boa idéia, dado o infeliz momento de escassez.
Pensou em mais alguns pratos, práticos, de rápido preparo, como um bom e velho flambado, ou um grande ensopado, com alguns leguminosos revoltados, sapos vermelhos para dar cor, e ervas diabólicas, seu condimento preferido pela ardência!
Fez-se ao longo do caminho, pegando o que surgia e depositando tudo em um saco menor, deixando então para decidir no momento, qual prato seria o do dia.

Finalmente retornou à caverna. Esta, fora lapidada pelo tempo, graças às erosões numa colina, fazendo com que algumas árvores despencassem, entortassem, e formassem aquele corredor de raízes, agora podadas rudimentarmente por mãos grosseiras. Uma porta guardava aquela fenda natural. Tão pesada era, que precisou encobrir o chão com diversas rochas antes de inseri-la, impossibilitando aquele colosso de pedras e troncos, que para ele parecia até um arbusto, afundar no chão macio de terra molhada.

Se o ambiente externo onde se encontrava a caverna, já era escuro, dentro era como o lar das mais nefastas criaturas, e realmente era, mas só de uma. Adentrou-a, sem nem ao menos fechar sua porta, pois sua cabeça estava à mil, assim como sua fome. No escuro, mordeu o ar com força algumas vezes, até que criou uma faísca, acendendo uma tocha velha enfiada pela metade na parede, iluminando precariamente aquele alto, porém apertado aposento.
Depositou o pesado saco no chão. Pegou um grande caldeirão, cheio de restos das refeições anteriores. Juntou alguns troncos e madeiras podres, reservados especialmente para o preparo de suas sestas, e com a tocha da parede, fez uma larga e circular fogueira. Pegou o caldeirão e dirigiu-se com ele até um buraco no solo. Com um tipo de concha grande e comprida, enfiava no buraco, retirando porções de uma água escura, enchendo assim, a grande panela. Depositou-a no fogo. Pegou o saco menor, e derramou seu conteúdo em uma mesa ao lado do caldeirão. Em cima da mesa encontravam-se algumas pedras, objetos de madeira estranhos, alguns utilizados por estes pequenos que trazia para jantar. Com uma pedra lisa, circular e achatada, similar à uma faca, despedaçou alguns cogumelos, cortou algumas ervas diabólicas, estas com o devido cuidado para não tocá-las, pois seu contato pode infligir terríveis aflições. Retirou alguns sapos vermelhos, e espremeu-os no caldeirão. Jogou mais algumas especiarias, e com a concha estranha, mexeu a água, que a essa altura já exalava uma fumaça denunciando sua temperatura, assim como um odor, que, se para alguns traria até as tripas ao chão, para ele, trazia o êxtase máximo.

Saltitou alegremente até o saco maior, que permanecia imóvel há tempos. E na hora em que ia tocá-lo, uma voz se fez ouvir:
- Alto lá!
Sem entender nada, pois não sentiu o cheiro de ninguém chegando, virou-se à porta, para nada ver. Coçou a cabeça, aspirou profundamente, e nada... Voltou-se então novamente para o saco, e novamente a voz se fez:
- Eu disse pra parar! Seu Trolo estúpido!
Furioso com o insulto urrou tão alto, que a caverna tremeu, fazendo cair uma chuva de detritos das paredes e do teto. Tão forte fora o acesso de raiva, que o saco começava a se mover. Ao perceber que sua refeição despertara, deu uma longa passada, já com o braço direito realizando um movimento vertical circular, para cair sobre o saco e assim, decididamente, comer um purê. Porém, no momento em que sua mão estava acima da cabeça, golfou um pouco de seu sangue negro, ao mesmo tempo em que uma enorme pressão era exercida de dentro pra fora de sua caixa torácica. Quando olhou para baixo, viu sendo-se perfurado de dentro para fora, com uma lâmina formada por folhas, tão bem adornadas e dispostas umas às outras, que fascinado pela sua exuberância esqueceu-se da dor por alguns segundos. Mas o agressor não fora gentil, e rasgou-lhe a barriga por completo, saltando de dentro dela com agilidade, exalando a fumaça proveniente do ácido estomacal. O intrépido pequeno, de cabelos formados por longas folhas azuis, balançou-se então para retirar o excesso daquela gosma asquerosa, demonstrando não sentir dor alguma com o ácido no corpo, e disse, com um largo sorriso debochado no rosto:
- Isso, é pra você aprender a nunca - ao que sua feição transformou-se em algo assustador, enquanto elevava aquela espada ao ar, realizando um giro em torno de si mesmo - NUNCA MAIS comer um Zephyr!
Descendeu sobre ele um corte tão violento, e tão transtornado estava pelo ocorrido inesperado, que não reagiu. Rolou ao chão, vendo suas pernas tombarem para trás, agora separadas do tronco. Com a cabeça voltada ao solo, sentiu por um segundo uma alfinetada na cabeça, e de uma hora para outra, toda dor, fome, ânsia, raiva, ou qualquer inquietação que o assolava se fora.

Agora uma claridade surgia, diferente das outras antes incômodas, reconfortava-o plenamente. Fechou os olhos, e ouviu uma voz suave e quente dizer-lhe ao pé do ouvido:
- Agora, tens a chance de tentar de novo.

Vultos Incógnitos  

Posted by Harijan D

Caro colega de interesses e propósitos.

Já conseguiu imaginar a existência de um grupo de senhores, adoradores das artes profanas, com a capacidade de manipular muito mais do que podemos ver, agindo nesse instante, realizando uma sequência de fatos e planos inescrupulosos, alterando o rumo de nossas vidas e de todo o resto?

De fato, eu também achava que essas teorias da conspiração fossem manifestações de loucura, ou assuntos de indivíduos que não possuem interesse em aprimorar-se. Mas de fato, elas têm fundamento. E é a presença deles que confirma. Tão forte é, que só agora, consigo notar seus dedos maquiavélicos realizando uma dança macabra, desejando assim, subjugar nossa realidade.

Eles são secretos. Tão ocultos que nem mesmo sabem da existência um dos outros. Apenas sentem-se, independente de distâncias, cooperam entre si com a certeza do subconsciente. Suas ações meticulosas e perspicazes interagem de forma secular, irrevogáveis pela sua natureza obscura.
Seus objetivos são diversos, cada qual com sua própria lei de interesses, seguindo-as tão rigorosamente quanto as quatro estações, sucedendo uma a outra, operando harmoniosamente sem nenhuma falha que interfira no que convém aos seus ideais.

Um está obcecado com a forma de outrem, querendo aquilo que não consegue ser do modo como deveria, buscando algo que convém com sua natureza morbida. Em seus devaneios por sua busca, acaba por negligenciar o agora, sendo o menos favorecido em relação aos outros.

Outro, deseja tanto manter as tradições que mantiveram seu legado, que foi o primeiro a sucumbir. Cega-se para as infinitas possibilidades das novas mudanças e tendências, fechando-se num castelo de irracionalidade. Seu medo acaba por guiá-lo numa existência contraditória, pois na busca de defender o que acredita, causa mais dor, proliferando assim, seus adversários.

Existe um que na sua loucura, constrói noite e dia artefatos que ninguém jamais usará. Busca a estrutura perfeita para realizar seus projetos nefastos, porém não são muitos aqueles que apreciam seu trabalho. Seus objetivos não são claros, sendo o mais misterioso dentre eles em seus ideais.

Já este outro, que antes fora um ser temido nas profundezas de outros mares, agora espalha sua fama pela superfície, em proporção à sua ambição insaciável. Demonstrando nenhum remorso, característica peculiar também aos outros membros, e aqueles que interferem em seu caminho, acabam por sofrer arduamente em suas mãos vingativas. Porém é de todos, aquele com o maior número de rivais, proporcionando uma vida intensa de um futuro incerto, servindo de entorpecente para seu instinto desumano e voraz.

Dentre eles, um está mais do que todos, focado em perseverar com aqueles de sua origem. Tamanha é sua compaixão pelos seus próximos, que qualquer sentimento ou pensamento a respeito de diferentes, ao vagar por sua mente, é convergido em aversão, ódio e desrespeito indiscriminado. As vendas nos olhos deste acaba por influenciar seu povo, de tal maneira, que alterando a história de poucos, cria eventos culminantes que distorcem o futuro de muitos, inclusive o próprio. Acredito eu, que de todos, seja o mais afável.

O que mais temo, está entre nós. Este, manipula mais do que imaginamos, influencia mais do que percebemos, e acaba por fim, a traçar rumos na nossa história diferentes dos escolhidos pelo Destino. Sua inquietação é tanta, que a satisfação não habita mais seu ser, buscando a todo instante a ampliação de sua teia de intrigas. Seus objetivos são um pesadelo para quem os descobre, o domínio de nosso povo!

No entanto, todos estes acabam por reger suas ações de acordo com o um maior. O líder enclausurado. Este, é o mais temível de todos, mas ao mesmo tempo o menos preocupante, pois enquanto sua busca está em algo além das nuvens, acaba por se abrandar em assuntos Terrenos. Não se move, mas se o fizer, provavelmente perderemos em alguns poucos segundos, o que demorou séculos para ser construído. Sobre este, acredito ser desnecessário preocupar-mo-nos, pois ele está, de alguma forma, sob controle.


Minha fonte sobre tais informações é mais do que secreta, porém suficientemente segura para afirmar que estes eventos são, infelizmente, palpáveis.

Não quero deixa-los preocupados, porém não posso negar a importância do acontecimento que foi descobrir tais informações, e como isso alterará daqui por diante nossas ações, pois isto nada mais é, do que uma possibilidade sempre presente no universo dos opostos.
Busco agora, reunir mentes poderosas e capazes o suficiente para descobrir mais sobre os mesmos, e de algum modo, evitar futuras catástrofes. Não sabemos a natureza de sua origem, nem quem são em realidade. Apenas que estão conosco, o tempo todo, em todos os lugares. E rezo para que as forças opostas a eles, em algum momento, clareiem nossas mentes para sua existência, e de algum modo, nos ajude...

De seu sempre obstinante amigo, Garnagonel de Barunovirag

Para casa  

Posted by André M

Corria. Enquanto o galope da montaria deixava a trilha dum som surdo, e no chão, as marcas da pisada forte, o sangue corria. Corria veloz nas veias; veias que harmonizavam com as do animal que montava. As veias do animal traçavam o cansaço em seu corpo, as do cavaleiro diziam a tensão da fuga.

Corria. O animal corria. O cavaleiro pensava. Pensava se deveria parar. A adrenalina corria, a bainha da espada chocava a ponta de metal ao metal do estribo. O metal vibrava, e vibrava, na mesma sintonia, a mente afiada do fugitivo. A adrenalina vibrava o corpo; o metal da espada correu pela bainha. O cavaleiro parou.

O vento assobiava veloz, e o frio navalhava seu caminho pelo rosto. Era noite de inverno. O inverno frio daquela região. O cavaleiro apeou e o capuz que cobria a cabeça correu as costas, revelando as enormes presas inferiores do maxilar potente, e a total ausência de nariz, apenas narinas. A luz da lua batia forte à encosta da montanha. Ali estavam o orc e sua montaria. O gigantesco bode montanhês carregava tudo, menos a espada. O guerreiro carregava a espada. A espada guiava o guerreiro.

Com um forte tapa no lombo fez a montaria correr. O bode escalou habilmente a encosta, caminho de casa. O outro, porém, não sabia se voltaria para casa. Um suave cheiro de pólvora salpicou o nariz treinado do guerreiro, que logo pressentiu o pior. Já estava ali!

No breu da copa de uma árvore, uma faísca vermelha queima o pavio de um rifle. A faísca brilha pequena como um vaga-lume, cintilando na periferia da visão do orc, que esperava... É mais que suficiente. Já voltado à direção do franco atirador, sacou a espada, ao mesmo tempo em que o estrondo da pólvora rompia a bala através do cano. Com um balançar semelhante ao do pescador que lança a isca na água, cortou a bala num instante.

Porém, seguido à bala, surgiu o próprio rifle, que voava velozmente e agora, com a proximidade, exibia uma grande ponta de lança. A guarda da espada estava baixa após o primeiro corte, e o corpo não havia recuperado todo o equilíbrio. Com um ligeiro giro no próprio eixo, o orc evitou o golpe fatal, desviando seu coração da trajetória, mas sendo cravado pelo metal frio no ombro esquerdo.

O caçador saltou bruscamente da árvore para o ar. O espadachin olhou para cima e pôde ver, cravada na lua, a silhueta sinistra de seu inimigo, que já empunhava duas pistolas apontadas ameaçadoramente. De repente a atmosfera mudou e o frio não mais existia. Do ar, enquanto mirava o alvo, o perseguidor viu a realidade bruxulear ao redor de sua presa, que envergava os joelhos, preparando-se para saltar. Todo o cenário ao redor retorcia-se perante a grande aura de calor que emanava do corpo do orc; o ferimento no ombro esquerdo estava cauterizado.

A visão perturbadora do fogo que começava a envolver o corpo do guerreiro paralisou o caçador por um instante, mas este se recuperou rapidamente alvejando sua presa do ar. Com o salto, todo o fogo que antes envolvia o corpo do orc agora queimava na espada numa chama azulada, que a assemelhava a um gigantesco maçarico. Enquanto o franco atirador descia disparando inúmeras balas, o espadaschin subia em sua direção, atravessando o ar entres os projéteis e defletindo-os quando necessário. O orc emanava fogo dos olhos e com um golpe transversal, de baixo para cima, rompeu a espada contra o corpo de seu perseguidor. Um estrondo de rojão ecoou no céu e quando o orc aterrissou, seguido a ele, uma chuva de fuligem cobriu o solo ao redor, sem nenhum rastro do atirador... Apenas fuligem.

            Até que enfim, podia voltar para casa.

           

 



Um Mür  

Posted by Harijan D


Iorfay, atenção!

Esta manhã, aquele que consideramos como O Estranho, cometeu um delito de gravíssima consequência. Coddyth Lann, o Zephyr Azul, tentou matar nosso Grão Mestre Druída, Nutaril Vortiggern no que seria a nossa Árvore Primordial, que agora se chama O Plano do Traidor.

As circunstâncias estão sendo investigadas, no entanto, nosso líder permanece em descanso, pois nossa mãe Gaia não o quis ainda, mas em consequência levou muito de sua energia no embate pela existência.

O traidor, por algum motivo ainda desconhecido à nós, permaneceu vivo. No entanto, Gaia é soberana e irrefutável, e sábias são suas decisões. Este, que agora não mais nos pertence nem nós a ele, vaga pelo mundo corrupto dos De Fora, e em pouco tempo seu ciclo será interrompido, sofrendo então o apodrecimento Terreno.
Ao fugir de seu julgamento, considerado é então, a partir de agora, um Mür-Zephyr, sendo revogado quaisquer direito sobre seu antigo cargo.

Nós, escolhidos por nascença para defendor o Primordial, não podemos relevar este fato, porém não fomos incubidos de agir pelo Ciclo, pois não podemos em nenhum instante sequer, interromper nossas atividades essênciais na luta contra a Corrupção, e devemos apenas contar que o futuro se faça certo.

Ao sinal do traidor, usem o Nargongo, e clamem pelos Sentinelas-Sempre-Acessos, pois se ele voltar, nós somos os responsáveis pela sua rota.

Traído  

Posted by Harijan D

Se perguntava como havia chegando a esta situação. Seus pés estavam encharcados, com areia nos dedos que deixavam seus passos, já descrédulos, inconfortáveis com o atrito, enquanto as ondas fracas daquela praia morta afagavam tristemente os tornozelos. Olhava ao redor, e embora sempre soubesse da possibilidade de algo assim ocorrorer, tendo escolhido a vida que levava, não queria acreditar no fato de ter sido abandonado, alí, pelos seus companheiros.
Levantou o braço e em algumas fracções de segundos, amaldiçoou-os evocando inúmeros nomes, mas não realizou o ato. Seu rosto contorceu-se de raiva, e fechou os olhos segurando o choro. Sem forças, despencou de joelhos ao chão de areia.

Olhou ao redor com sua face infeliz, na costa, apenas um vestígio de selva acolhida por uma neblina intensa. No mar, a pouca luz que ultrapassava a neblina daquela praia o permitia olhar pra fúria daquela imensidão d'água estranha.
As ondas debatiam-se violentamente, incontrolável. Sobre a superfície era apenas possível presenciar a explosão aquática de um grande embate entre dois demônios das águas, e em poucos metros antes da areia, uma calmaria abatia as ondas furiosas, reconfortadas pela neblina. Era possível ver o horizonte do mar, mas não o da praia. A neblina enconbria a visão. A Neblina encobria muitas outras coisas. Em nenhum momento deixou de temer a situação atual, ainda mais observando aquele barco repleto de traidores e luzes, distanciar-se cada vez mais além da brincadeira dos demônios. Mas não negava o fato de estar vivo, e se estava, era porque os demônios estavam demonstrando piedade. Virou o corpo para a praia e fez um aceno de gratidão, mas ao prosternar-se debateu com sua espada. Foi-se então toda sua apatia. Agarrou-a pela bainha, meio molhada, como o resto da arma, ergueu-a acima de sua cabeça na direção do barco, e em um silêncio sepulcral, jurou vingança! E no momento da explosão de tanta energia disposta, os demônios acalmaram-se repentinamente, mas aparentemente dando pouca atenção para o evento, pois voltaram de imediato a briga.



Levantou sem fazer um barulho, ajeitou a jaqueta de couro encharcada, chacoalhou o corpo pra tirar um pouco da areia, reajustou a bainha da espada no cinturão, tirou a lâmina, que sorria ao reluzir naquele local opaco, demonstrando, tanto nesse, quanto no gesto de ter retornado ao seu mestre, que era uma extensão do espírito do mesmo.
Segurou firme a espada pelo cabo, flexionou as pernas e o corpo em sua costumeira posição de combate. Gingou então com a graça de um espadachim muito experiente, e realizou um truque ensinado por seu mestre, mas desenvolvido à sua moda com o passar dos anos.
Rasgou a Neblina com um corte horizontal, e na abertura, uma luz brilhou iluminando-o. Não perdeu tempo, arremessou-se para dentro da fenda luminosa.

Girou, girou, até bater com as costas naquela encosta de areia. A claridade ofuscou-lhe a vista, obrigando-o a esfregar os olhos com força. Tateou o corpo verificando seu estado físico, e com olhos apertados, observou ao redor. O barco agora já estava longe, a mesma praia agora era clara com a luz do meio dia, queimando-lhe a pele sem perdão. Os demônios não mais furiosos estavam, e o mar normalizara.
A ilha agora revelava uma selva tropical de proporções gigantescas. Agora era possível ver com mais clareza, havia se livrado do temor maior. Havia passado no teste daquela ilha. Não podia mais perder tempo. Saulf precisava pagar, e sua tentativa de livrar-se do seu maior rival, fora-se. Seu capitão precisava ser vingado.

Jurou então, em nome de sua espada, de sua irmã e de seu capitão, que Drenn Nilannir faria honrar o nome do Dama da Noite, fosse o tempo que custasse, o caminho que se seguisse, e os inimigos que se mostrassem.

Relatório Sobre o Evento da Ilha Kork'ova  

Posted by andre

Arquipélago do Dromedário Cinza, Ilha Hab'oo - Quartel da Inteligência de Lúmina,



data indeterminada, ano 889L.






Esta mensagem deve ser entregue diretamente ao Grão General Zur da Guarda de Lúmina, sem intermediários.






Há semanas que a neblina havia tomado todo o arquipélago. Podíamos sentir nas nossas narinas a densidade das partículas que nos envolviam e não era um bom presságio. Sabíamos da presença de um dos membros mais poderosos da dita "irmandade" em uma das ilhas, mas não podíamos revelar nossa posição, nem constatar com a devida exatidão a localização do inimigo. Só uma certeza nos abatia, o frio. Posso afirmar com todas as forças que ainda restam a um guerreiro que viveu enúmeros cataclismas de tão enormes proporções - nunca senti tanto frio.

Nos dois primeiros dias, toda água da nossa instalação militar se viu congelada, a começar por pequenas poças e em seguida os baldes, os reservatórios até petrificar o rio que nos abastecia até sua nascente. Os recrutas que lá foram averiguar o caso e se possível trazer água para nós, viram que não só o lago da nascente estava congelado, mas após quebrar com picaretas o gelo da superfície e chegarem ao leito, se depararam com a magnitude da catástrofe que nos assolava. A água congelara até nos lençóis subterrâneos. Imediatamente mandei uma espedição de recrutas disfarçados para as ilhas adjacentes. Eu, como todo comandante precavido, temi pela vida de meus homens, sabendo que aquele estranho evento nada tinha de natural e se fosse o caso, teríamos de evacuar as imediações, pois a força extrema daquele evento seria demais para qualquer tropa do nosso nível. Ao fim do terceiro dia meus homens voltaram trazendo uma notícia emissora de tranqüilidade e ao mesmo tempo de um assombro imensurável. Na visita às ilhas que se aproximavam ao centro do arquipélago, meus soldados tiveram a visão mais aterrorizante de suas vidas até o determinado momento. Chegando no extremo norte da Ilha Lomb'oo, localizada imediatamente ao norte de Hab'oo, degladiando-se contra o frio que se extremava cada vez mais, chocou-se contra suas jovens pupilas o gélido horror. Toda a cidade de Lomb'oo estava coberta por uma camada espessa e cristalina que parecia de uma solidez indestrutível, do extremo de uma anca à outra. Os habitantes estavam paralizados nas ruas, como que pegos no meio de um dia comum. Uns parados em frente às vendas de comida, outros em cima de cavalos... todos congelados. Dos seis recrutas que foram e voltaram, um estava moribundo de hipotermia, outro catatônico, enquanto os outros quatro num balbucio trêmulo, tentavam, com frases inexatas, expressar o acontecido. Cheguei a ouvir de um deles - ... os olhos, era como se estivessem vivos - e notei a situação. Com certeza o foco daquele ataque não era o nosso grupo, mas algo de muito estranho estava acontecendo. Tive a certeza que o epicentro glacial seria a localização exata do vilão que procurávamos investigar. Mas estava de mãos atadas, no quarto dia, já acordávamos todos com pedrículas de gelo sob os olhos e tendo que nos banhar em termas improvisadas para que nossas mucosas não se solidificassem. Chegamos ao ponto de ter que selar o nosso edifício e atear fogo em tudo que podia ser feito de combustível para nos manter com vida.

No sexto dia, os humores já estavam abalados. Senti que meus homens fraquejavam e a maioria deles não saía de suas banheiras quentes. Como líder, não podia permitir o amolecimento de meus subordinados. A atitude que tomei, pode parecer um tanto quanto inconseqüente, mas ao meu ver se fez necessária. Com minhas próprias mãos, ergui na parte norte da ilha uma cabana de vigília que mantive aquecida precariamente. A chefe das cozinheiras me acompanhou. Apesar de sempre ter achado repugnante aquela volumosa fêmea Quoig, sua superabundância de tecido adiposo me foi muito útil e agradável naquela noite.

Foi pela manhã apenas que consegui fazer com que minhas pálpebras ganhassem peso. Sentado de frente para a costa nebulosa, via ao longe um enorme pernil de javali que encrustava seu caldo pelas entrancias das papilas e subia-me o aroma qua alcançava quase o topo da testa quando o alucinatório horror desabou sobre tudo e a todos a minha volta. Na profundidade do sono que me saboreava, senti um rumor quente vindo de muito longe, das minhas costas. A princípio, me aconcheguei no alento quente quase que macio daquele presságio suave de lareira. Foi quase no mesmo momento em que meus cabelos começaram a queimar, contorcendo-se pelas pontas, que minhas costas e a parte de trás das orelhas começaram a arder e ouvi o início de um estrondo aterrador. Num susto, ao me voltar para a direção do quartel contemplei durante menos de meio segundo, como a única testemunha de um apocalipse sem aviso, a potência gargântica da destruição máxima e implacável. As paredes do edifício voavam em pedaços, juntamente com os moveis, os pedaços de homens que sobravam no ar, acompanhados de uma chama que brotava como um ardente cogumelo de magma e que lançava o telhado do quartel para um ponto no céu onde se perdia de vista. Então eu tive a visão que me fez envelhecer, em menos de um quarto de segundo, a duração de um século. Vindo do centro da explosão, seguido por um rastro encandescente e faiscante, uma silhueta humanóide. Eu, que achava que o inferno já havia se resumido à minha frente num instante atrás, ao ver os olhos diabólicos de brasa
como lanternas caóticas da criatura de aerodinâmica bélica cortanto o ar em minha direção e uma ponta de lança bem a frente do rosto que cortava o ar gelado com a suavidade infernal de um feiche de luz, lancei-me para o chão, tentando ao máximo com o impacto enfiar-me sob o gelo num esforço indiscriminado de alcançar o mundo do outro lado. Foi quando senti a reverberação de uma gargalhada fumegante que passava por cima da minha cabeça, mais veloz que qualquer coisa presente no mundo. Logo levantei a cabeça, num susto como o que me voltara para o quartel acabado a menos de um décimo de segundo atrás, e olhei para o centro do arquipélago, mais precisamente a ilha Kork'ova, foco da trajetória do projétil insano, que sumiu por um instante por entre a nevoa quase sólida. E num sopro vermelho e laranja que subiu aos céus numa árvore de magma, de repente tudo era cinza e o tempo era como de lugar tropical. Do frio absoluto ao sol escaldante num segundo.


Não sei, prezado General, e sinceramente não tenho a certeza de querer saber a natureza desse evento que descrevi. O que sei é que jamais vi uma ilha inteira de magnitudes colossais como Kork'ova ser reduzida a nada como foi o acontecido. Nada General! Nada! Peço desculpas pela emotividade que expresso em meu relatório. Perdi todos os homens sob meu comando. Mando esta carta por via da cozinheira que voa de dirigível para Lúmina, com a tarefa de fazê-la chegar em mãos. Nesse exato momento em que encerro meu comunicado, pego a minha balsa e me retiro prontamente do serviço à guarda da maior cidade do mundo, parvo, envelhecido e atônito. Não terei condições de dar baixa oficialmente, peço como favor pela nossa antiga amizade. E por toda a honra que tive em combater ao lado dos bravos, peço que ache meios de pelo menos descobrir a natureza da catástrofe.

Muito obrigado,
Coronel Porco do Mar